Inflação de dois dígitos corrói o poder de compra do consumidor

Em Campo Grande, a inflação de janeiro deste ano ficou em 0,62%, a maior registrada para o mês desde 2016. No acumulado de 12 meses, a taxa da Capital chegou a 11,02%, o mais alto impacto conforme a série histórica – enquanto a média nacional é de 10,38%.

Segundo os especialistas ouvidos pelo Correio do Estado, a manutenção do índice em dois dígitos corrói o poder de compra do consumidor.

O mestre em Economia Eugênio Pavão explica que o reflexo da inflação na renda da sociedade é a perda da capacidade de manter o consumo.

“Com a redução da aquisição de produtos e a substituição por outros com preços menores. As projeções de inflação de 2022 mostram que a economia brasileira tem desajustes entre a oferta e demanda”.

Conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os combustíveis continuam sendo os “vilões”, com maior contribuição para a elevação do índice. Em 12 meses, o etanol acumula alta de 56,46%, o diesel subiu 44,39% e a gasolina aumentou 37,84%.

“Os custos de água, esgoto e energia representam parte da inflação brasileira nos últimos anos, e os custos da energia elétrica e de combustíveis são os que mais interferem no circuito econômico”, considera Pavão.

Nos últimos 12 meses, o grupo de transportes sofreu elevação de 21,98%; habitação, 12,67%; e alimentos e bebidas, 7,57%, sendo os três com maior peso para a formação do índice. Para o doutor em Economia Michel Constantino, a meta do Banco Central (BC) de manter a inflação abaixo de 5% ainda não será atingida neste ano.

“Espera-se que a cada mês haja uma redução na inflação para que até o fim do ano fique entre 5% e 6%. Dentro dessa expectativa temos produtos que vão reduzir os preços, e outros que vão se manter, como os combustíveis e a energia elétrica”.

“O combustível tem um efeito multiplicador, com ele aumenta o frete, que aumenta os custos de produção e do produto final. Energia é a mesma coisa, aumenta os custos e o produto que chega ao consumidor”, completa.

PEC DOS COMBUSTÍVEIS

Várias propostas são discutidas no Congresso Nacional com o intuito de reduzir os impostos e o preço final do diesel, da gasolina e do gás de cozinha.

Entre elas, tramita no Senado a proposta de emenda à Constituição (PEC) tratada como Kamikaze pela equipe econômica do governo federal.

O texto, de autoria do senador Carlos Fávaro (PSD-MT), propõe reduzir os tributos sobre combustíveis, cria um vale-diesel para caminhoneiros, dá subsídio para tarifas de ônibus e amplia o vale-gás.

O impacto total, segundo integrantes da equipe econômica, supera R$ 100 bilhões, por isso ganhou a alcunha de Kamikaze.

O Banco Central alertou, na terça-feira (8), que o tiro pode sair pela culatra. Na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), o colegiado chama atenção para medidas que na verdade podem contribuir para deteriorar o cenário fiscal, levando a um aumento das projeções de inflação logo à frente.

“O Comitê nota que mesmo políticas fiscais que tenham efeitos baixistas sobre a inflação no curto prazo podem causar deterioração nos prêmios de risco, aumento das expectativas de inflação e, consequentemente, um efeito altista na inflação”.

Segundo o economista Eugênio Pavão, como a política de preços de combustíveis é determinada pelo mercado internacional, a alta dos custos vai continuar.

“As propostas de interferência sobre os tributos não vão gerar resultados ao consumidor final, pois parte dos custos vem do valor do dólar, e, como este ano é um ano eleitoral, é bastante comum que a economia se torne altamente instável, fazendo com que os investidores se protejam investindo em dólar, ouro ou outros investimentos que elevem o valor da moeda americana”.

Para o economista Marcio Coutinho, a PEC tem por objetivo controlar os preços com a redução de impostos, mas não são somente os combustíveis que influenciam na inflação.

“A proposta pode conter os preços dos combustíveis por um período, depois as coisas começam a se ajustar. Lembrando que a PEC é sobre combustíveis, gás de cozinha e esses produtos correlatos, e a economia não vive apenas desses produtos. Existem outros produtos que podem sofrer alterações, impactando também o índice”.

O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo que a proposta do Senado “é uma bomba fiscal”.

“Seu custo poderá chegar a R$ 110, 120, 130 bilhões ao ano. Esta proposta tem o potencial de anular todos os ganhos que ela busca, pela possibilidade que tem de provocar uma alta do dólar, com reflexos nos preços dos combustíveis. É uma insensatez”.

O ministro ainda reforça que a proposta perde a finalidade porque “ela acaba por financiar muita coisa que não é para financiar, como gasolina de avião e helicóptero e lancha de milionário, gasolina de carro de passeio, além de não ser verde. Vai ser o inverso de tudo o que estamos fazendo, no sentido de reduzir os subsídios”, finaliza Guedes.

(*) Correio do Estado