“Fronteira de sangue” teve 17 pessoas executadas em apenas 30 dias

Pelo menos 17 pessoas foram executadas nos últimos 30 dias apenas na linha internacional formada por Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul. Os números são informais e fazem parte de levantamento feito pelo Campo Grande News com base em reportagens sobre as execuções publicadas de 25 de setembro de 2021 até ontem (25).

Estatística oficial só existe no lado brasileiro, onde foram registradas 3 das 17 execuções desse mês sangrento. As outras 14 foram do lado paraguaio da fronteira. Desde a semana passada, a reportagem tenta, sem sucesso, conseguir o balanço oficial da Polícia Nacional. Nem mesmo jornalistas paraguaios conseguem acesso aos dados.

É bom lembrar que esses 17 assassinatos foram registrados apenas em Pedro Juan e Ponta Porã. Não estão incluídas execuções ocorridas em outras cidades da Linha Internacional, como Paranhos (MS) e Capitán Bado (Paraguai).

Guerra do tráfico – A escalada sem precedentes da violência é atribuída à guerra travada por facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas e de armas, mas moradores da fronteira afirmam que muitas pessoas são assassinadas por outros motivos e as mortes “colocadas na conta” do crime organizado e dos autodenominados “justiceiros”.

Depois da chacina de quatro pessoas (duas delas brasileiras), no dia 9 de outubro, o policiamento foi intensificado dos dois lados, mas nem mesmo a maciça presença da polícia intimida os pistoleiros.

Os sicários – como os pistoleiros são chamados nos países de língua espanhola – continuam agindo à luz do dia e ontem, mataram mais um, o advogado Joel Angel Villalba Aguero, 45.

Após a chacina que teve entre as vítimas a filha do governador de Amambay, Ronald Acevedo, a Polícia Nacional e a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) passaram a agir com mais intensidade em Pedro Juan Caballero.

Em duas semanas, as forças paraguaias desmontaram três esconderijos de pistoleiros e prenderam 11 suspeitos de execuções, mas até agora não existe denúncia formal e provas contundentes que possam incriminá-los pelos assassinatos mais recentes.

“A polícia paraguaia está fazendo um bom trabalho nos últimos dias”, afirmou um policial do lado brasileiro. Entretanto, nas ruas das cidades-gêmeas, a sensação de insegurança continua.

Banho de sangue – Quem mora há décadas na região afirma que os assassinatos ligados à disputa pelo controle do crime organizado na fronteira entre o Paraguai e Mato Grosso do Sul sempre existiram. A diferença agora são os requintes de crueldade, como esquartejamentos, decapitações e até mesmo violação dos corpos com pedaços de pau.

A mais recente onda de execuções começou no dia 25 de setembro. Na noite daquele sábado, o brasileiro Rogerio Laurete Buosi, 26, foi executado a tiros de pistola 9 milímetros no bairro Defensores Del Chaco, em Pedro Juan Caballero.

Ao lado do corpo, foi encontrado papel com a frase “não roubar na fronteira”. Familiares do rapaz negaram o envolvimento dele com o crime e acusaram a polícia paraguaia de esconder informações sobre o caso.

Dois dias depois, na mesma cidade, o paraguaio Jorge Ortega García, 27, foi morto a tiros no meio da rua, no Jardim Aurora. Horas depois, o ex-vereador e empresário Joanir Subtil Viana, 53, foi executado dentro de sua caminhonete no centro de Ponta Porã. Com antecedentes por tráfico de drogas, ele seria amigo de Jorge Ortega.

Decapitado – No mesmo dia, foi encontrado ao lado do quartel do Exército do Paraguai, em Pedro Juan, o corpo do brasileiro Carlos Limar de Souza Lima, 38. Torturado, ele teve a barriga aberta por profundo golpe de faca, parte das tripas foi arrancada e introduzida na boca do cadáver e a cabeça separada do corpo.

Sobre o corpo enrolado num edredom foi deixado cartaz com a frase: “nós do crime estamos deixando claro que não iremos maios admitir covardias cometidas por esses justiceiros, seja quem for”.

(*) Campo Grande News